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Salgueiro 1998 Parintins, a Ilha do Boi Bumbá Garantido e Caprichoso





PARINTINS, A ILHA DO BOI-BUMBÁ: GARANTIDO X CAPRICHOSO, CAPRICHOSO X GARANTIDO

samba de enredo

Alô, você, alô do boi-bumbá 
Vem salgueirar, vem salgueirar, vem salgueirar 
Vem garantir, iô-iô 
Vem caprichar, iá-iá 
A lenda viva do folclore está no ar 
São dois pra lá (ê Boi) 
São dois pra cá... 
Dança nativa dos Parintintins 
Que maravilha 
Explosão na ilha 
Dos tupinambás 
Mostrando para o mundo inteiro 
Pois o meu Salgueiro 
É folclore popular 

Bate tambor, cunhã-poranga
É puro fogo no ar
Gira meu boi, meu boi-bumbá
Um lado azul, outro vermelho,
As cores do festival
É garantido, é caprichoso, o carnaval

Um duelo na floresta 
Veio de longe o meu boi-bumbá 
Entre rituais nativos 
Magias e lendas 
Ao som do tamurá 
Este é o Brasil cultural 
Raça mestiça e amor 
Mostrando o seu visual 
No carnaval 
Nossa cultura é assim 
O nosso povo é de fé 
Vem pro Salgueiro 
Se banhar de axé 

Eu sou um índio e só sei amar
Uso arco e flecha, na cabeça um cocar
Banho de cheiro de patchuli
Olha o Salgueiro na Sapucaí


sinopse do enredo

HISTÓRICO
Bem vindos a Parintins, a Ilha Encantada.

As "gaiolas", as "chatinha" e os "vaticanos" vão aportando suavemente.

Vindo de todos os lugares, os visitantes vão se aproximando da proa atraídos pela algazarras dos "Brincantes", que dão boas vindas com alegres toadas.

Estamos a 420 Km de Manaus.

A emoção da chegada nos deixa, sentir o pulsar do pulmão do mundo. E neste clima tomamos conhecimento da figura de DINAHÍ, a "mãe dágua": exuberante morena, que segundo a lenda emergiu do fundo das águas, trazidas por uma enorme serpente. Seu corpo sensual é metade mulher, e outra metade peixe. Ela é protetora dos rios, e também uma suave deusa que abre as portas deste mundo mágico que agora vamos penetrar.

"O JARDIM DO PARAÍSO"
A Ilha de Parintins foi chama primeiramente de Tupinan - Barana. Era habitada pelos guerreiros Parintintins, pelos Trupinambás, pelos Maués e Sapupés.

Antes do descobrimento oficial do Brasil, em 1496 um vendaval obrigou uma pequena caravela comandada pelo capitão Armendoriz de Cordoba a procurar abrigo nesta ilha.

Não fosse a exuberância selvagem do local, esta parada seria apenas um fato rotineiro a ser descrito no diário de bordo.

Os botes foram arriados e os marujos remaram ansiosos, atraídos pelo perfume das exóticas flores. Após tanto tempo no mar, esta terra virgem os entorpecia, fazendo-os cada vez mais embrenharem -se pela mata: abateram animais que nunca dantes haviam visto, colheram frutos de raros sabores, se surpreenderam com uma fonte cristalina, onde se banharam, supondo ser a fonte da juventude.

De repente o canto das águas foi cortado pela batida dos tambores selvagens. Os visitantes logo aperceberam-se que centenas de olhos os observaram.

Imediatamente guerreiros indígenas surgem contrastando minúsculas tangas e corpos pintados com as formais vestimentas européias. O encontro foi desprovido de agressividade de ambas as partes. 

Pôde-se logo destinguir o chefe dos índios, que indicou para seguirem em direção dos tambores.

Por uma alameda ladeada de flores, chegaram a um povoado. De pronto avistaram rapazes e moças de cabelos negros e sedosos, crianças que corriam alegres e velhos que socavam em pilões a mandioca ou trabalhavam no tear.

Grandes vasos com pinturas geométricas apresentava uma nova estética ao convidados, que logo perceberam estarem diante de uma solenidade: era a cerimônia do MUIRAQUITÃ., troféu que as CUNHATÃS ( mulheres jovem amazonas) entregariam aos rapazes perpetuando o amor eterno.

Uma cerimônia de rara beleza que emocionou até o mais rude marujo ali presente.

Hoje, depois de muito século, mais uma vez os rituais desta Ilha voltam a encantar ao homem branco.

"LENDAS E MISTÉRIOS DA ILHA"
O ritmo das toadas continua por toda a cidade engalanadas de azul, vermelha e branca. Neste cenário mágico os cablocos vão narrando antigas lendas da região.

Com ênfase vão descrevendo CURUPIRAS e CAIPORAS, onças pintadas e botos sedutores. Ouvindo adorações a TUPÃ, Deus dos trovões e MONÃ o Deus supremo.

Aprendemos a origem do guaraná derivada da tribo SATERÊ-MAUÉ, que segundo a lenda nasceu das terras sagradas onde foi enterrado CERRÁ-IWATÓ, o guerreiro.

Com convicção nos falam de ervas milagrosas, de serpentes mágicas e nos ARUANÃ, peixes que se transformam em índios, os KARAJÁS.

Este mundo de tão ricas imagens nos leva a sonhar acordado vendo girar ao nosso redor todos esses incríveis personagens.


"O FASCÍNIO DO BOI"
Ê - boi, oi vaqueiro, traz meu boi prá brincar!
Ê - ê, oi vaqueiro, traz meu boi prá dança!
(Silvio Camelão)
Aqui na Ilha a figura do Boi, está por toda parte. Me reporto ao tempo de menino sendo em balado por uma canção que falava: "Boi da cara preta, pega esse menino, que tem medo de careta".

O boi deste o início da humanidade se faz presente em todas as culturas. Aqui na festa de Parintins, ele, o personagem principal, mais uma vez será imolado e exaltado. Nesta euforia, que antecede a grande festa fazemos uma reflexão sobre algumas manifestações populares onde o Boi é a grande estrela.

- No antigo Egito o Boi representava a reencarnação de Osíris, o Deus da criação, que era chamado de "Boi Apis". Segundo o mandamento do Deus Rá, era sacrificado em substituição a seres humanos.

- Já na Grécia a mitologia nos mostra os Boi como motivo de bravura para seus heróis. O Deus dos Oceanos, Posseidon , fez emergir das profundezas do mar o touro branco de Creta. Este touro deveria ser sacrificado em sua honra, por Minus o rei de Creta. Porém, o sacrifício não ocorreu ocasionando a maldição da criatura com cabeça de touro e corpo de homem, o Minotauro.

- A figura bovina na Índia aparece em clima de adoração e respeito. Em grandes pompa as vacas sagradas atravessam as cidades cobertas com mantos bordados de pedrarias. São perfumadas e incensadas. O povo prefere morrer de fome a sacrificá-las.

- Na Espanha todas as semanas, milhares de pessoas se reúnem na praça principal para assistir a um duelo. O encontro do touro e do toureira, que já inspirou inúmeros artista, garante o sucesso do espetáculo.

- Trazidos pelo portugueses no século passado, o "Boi" chega ao nordeste assumindo suas características. Invadiu Pernambuco, o Ceará e o Maranhão, vestindo as alegres cores das frutas típicas. A febre da borracha no final do século passa atraiu muitas pessoas para o Amazonas, e com ele seguiu o "auto" do "Boi" .

Saindo nesta colorida ciranda em que o Boi foi visto de diversas maneiras, vamos de encontro a nossa meta principal, que é festejar o "BOI" mais adorado do Brasil: - O "BOI BUMBÁ"!


"GARANTIDO E CAPRICHOSO"
O surgimento desses "Bois" no início do século é narrado de diferentes formas. Qualquer que seja porém, a origem não desmerece nem outro.

Ao final do mês de maio tem início um verdadeiro multirão, que visa deixar tudo enfeitado de vermelho, branco e azul , cores do "Boi" Garantindo e do "Boi" Caprichoso.

Desde então a cidade fica dividida em dois "curais", como é chamado o local onde ensaiam.

Apesar da competição o objetivo principal é difundir o folclore Parintinense e a cultura Amazônica.

Por isso, todo ano uma série de atividade artísticas e culturais engrandece cada vez mais a imagem do Amazonas no âmbito nacional e internacional.

A festa do Boi" tem sua apresentação mais exuberante nos dias 28, 29 e 30 de junho. Nesses dias todas as atenções se voltam para os "Bois" GARANTIDO e CAPRICHOSO, que há 80 anos empolgam toda a ilha.

A apresentação dos grupos é feita para um público de mais 35 mil espectadores, exultantes com as toadas que cantam lendas e tradições da região.

O Bumba ganhou tanta força que foi necessário construir para sua apresentação o "Bumbódromo", como é chamado o popularmente conhecido anfiteatro Amazonino Mendes.

Apesar de respeitar as tradições e os mitos, o "Bumbá"está sempre em constante evolução.

Esta manifestação popular não é Carnaval, nem Axé, nem Maracatu. Nem propõe a ser uma autêntica dança indígena.

O que é certo é que nesta Festa todos tremem de emoção.

Tanto o "Boi" Garantido, como o "Boi" Caprichoso, trazem cerca de 5.000 "brincantes". Algumas das principais figuras obrigatória e quesitos são.

1. Apresentador:
Mestre de cerimônia, esboça com sua saudação aos guiados, convidados e galera os contornos do grande espetáculo, contagia a galera com sua alegria, fazendo o coração de cada brincante bater mais forte e chama para o centro da Arena o Levantador de Toadas.

2. Levantador de Toadas: 
É o intérprete oficial da agremiação.

3. Batucada: 
A batida do seus instrumentos se caracteriza por uma cadência específica no compasso 2/4.

4. Ritual: 
Uma apresentação de um conjunto de prática consagrada pelo uso e/ou normas e/ou mitos que devem ser observados de forma invariável em ocasiões determinadas no caso rituais indígenas.

5. Porta-estandarte: 
Baila com o estandarte de sua agremiação.

6. Amo do Boi: 
Expressa sua musicalidade em versos improvisados. Representa o patrão da Fazenda.

7. Sinhazinha da Fazenda: 
Ela representa a ascensão do ciclo do couro, a colonização e a influência espanhola, portuguesa e francesa na Amazônia. Sua indumentária, é tradicionalmente inspirado no século XVI.

8. Rainha do Floclore: 
A rainha acompanha a figura típica regional do período da ascensão da borracha que foi a riqueza por muito anos na Amazônia. Sua indumentária simboliza o Seringueiro e o seu nobre Ofício.

9. Cunhã-Poranga: 
A moça mais bonita da tribo. Ilumina com sua presença o espetáculo e o desfecho do Ritual.

10. Boi-Bumbá: 
É a evolução do Boi (a pessoa que faz esta evolução é chamado de Tripa).

11. Toada: 
É a musica que cada agremiação escolhe para ser julgada como o grande representante dentre todas cantadas no Bumbódromo.

12. Pajé: 
Ele é o elo entre o mundo dos mortos e dos vivos. Do bem e do mal, da saúde e da enfermidade, do instinto humano e animal, do céu e da terra. O Pajé em si já representa os quatro elementos. Seus pés evocam o elemento terra ao dançar. A lança ou maracá em suas mãos chamam os ventos quando posto em movimento. O suor é o elemento égua e o calor que emana do seu corpo é o fogo.

13. Tribo Indígena Masculina: 
Representa uma determinada tribo escolhida para ser retratada, abservando sempre suas característica originais, costumes, hábitos, dança, etc. sua localização e sua origem.

14. Tribo Indígena Feminina: 
Representa uma determinada tribo escolhida para ser retratada, abservando sempre suas característica originais, costumes, hábitos, dança, etc. sua localização e sua origem.

15. Tuxaua Luxo: 
Caracteriza o líder da tribo o aspecto da indumentária luxuosa.

16. Tuxaua Originalidade: 
Caracteriza o líder da tribo sob o aspecto da indumentária original com material natural da região.


17. Figura Típica Regional: 
Representa um tipo humano associado sempre a uma atividade econômica regional: Ex.: Pescador, seringueiro, etc.

18. Alegorias: 
São estruturas artísticas que dão suporte ao cenário que se pretende retratar.

19. Lenda Amazônica: 
Ilustrando as raízes da Amazônia e as histórias que passam de pai para filho.

20. Vaqueirada: 
A guardiã do Boi entra na arena com seu bailado tradicional.

21. Galera: 
Torcida que participa, criando um monumento vivo, um único corpo, um só coração.

22. Coreografia e Organização:
Arte de compor um bailado em consonância com os ritmos.


O "Boi" Garantido é conhecido como o do povão da baixa do São José e tem como símbolo um coração vermelho.

O "Boi" Caprichoso é o Diamante Negro e tem como símbolo uma estrela solitária azul.

Em virtude da realidade refere-se ao concorrente como o "contrário", não citando assim o nome da agremiação.

Nesta disputa a criatividade dos artistas faz surgir nos QGs., como são conhecidos os "barracões", verdadeiras obras de arte.

Os matérias rústicos da região, a palha, o cipó, as folhas secas, transformam-se em ricos personagens de conto de fadas. Penas multicores decoram imensas alegorias que bailam no espaço desafiando a gravidade.

As estórias desses deuses indígenas é aqui representada com esmero e apoio da mais moderna tecnologia.

Neste quadro feérico o "Boi" desafia a todos com irreverência e brejeirice, narrando a sua ressurreição após ter sido morto.

O canto do Boi-Bumbá é um ritmo afro-brasileiro, mistura de carimbó e samba, marcha e cateretê.

As luzes e cores encantam ao público, quando Garantindo e Caprichoso contam estórias de suas histórias.

Misturam o sonho e a realidade nesta acirrada competição, cujo maior vencedor será sempre a própria cultura, que se vê viva e protegida.


"A CONFRATERNIZAÇÃO"
No esplendor da euforia vermelha, azul e branca, da distante Ilha, sai para o mundo uma mensagem de vida e de arte: é o homem simples do Amazonas, autodidata por excelência, que libera sentimentos para mostrar alegrias e lamentos. Garantido e Caprichoso dão às mãos para mostrar a todos a força desta ópera amazônica.

Esta grande emoção só é superada quando param a batida da todas e todos se calam para ouvir o canto do UIRAPURU, o solista da floresta.


AGRADECIMENTOS:
Simão Assayag, com valiosa colaboração através do seu livro "BOI-BUMBÁ" festa, andança, luz e pajelanças.


JUSTIFICATIVA DO ENREDO
A Escola de Samba canta e dança a cultura brasileira, baseado nisto, o Salgueiro traz para Sapucaí o seu enredo sobre o Festival Folclórico de Parintins. Não é nossa intenção reproduzir, mas apresentar uma visão carnavalesca desta Festa popular e um pouco de suas origens.

A disputa entre dois grandes rivais, Garantido e Caprichoso assegura o sucesso do Evento, levando milhares de "brincantes" a viajarem mais de 24 horas pelo rico Amazonas para assistirem a competição durante três dias.

Um excelente "Bumbródromo", oferecendo infra-estutura adequada nos faz esquecer que estamos no meio da floresta Amazônica.

Respeitando as regras do festival, a linguagem do nosso trabalho é voltada para as lendas e tradições populares, misturando a fauna, a flora e o homem em situação surreal. Igualmente surreal é ver a distante Ilha de Tupinambarana, como era conhecida Parintins, transformar-se em um grande espetáculo internacional de luzes, cores e alta tecnologia, sem contudo perder suas origens e características.

Para mostrar o "sabor" do Festival Folclórico de Parintins, o Salgueiro trouxe ao Rio de Janeiro, artesões e artistas vindos de Parintins, para participarem da construção dos carros alegóricos e assinarem conosco nosso desfile.

Salgueiro quer mais uma vez a sua colaboração para preservação da Amazônia e das nossas raízes culturais.

Carro 1: Abre-Alas
Surge Dinahi, mãe dágua emergindo para saudar a todos e mostrar as maravilhas do Festival de Parintins.

Carro 2: Lendas e Mistérios da Ilha
Apresenta a lenda da Cobra-grande e a do "Mapinguari", gigante defensor das matas.

Carro 3: O Fascínio do Boi
O "Boi" nas diversas culturas (Egito, Grécia, Índia, Espanha) e sua penetração no Brasil através do Folclore regional (Nordeste e Norte).

Carro 4: O Boi Garantido
Os Botos trazem o globo terrestre demonstrando o sucesso mundial alcançado pelas "Toadas" e pelas representações do "Boi Bumbá". O coração vermelho, que representa o "Boi" Garantido é trazido por um Boto que se transforma em índio (lenda da tribo Arau-anã).

Carro 5: O Boi Caprichoso
Rrepresentação através do cerimonial da nação "Saterê - Maué", exaltando os mortos. A Estrela é o símbolo do Caprichoso e o Bambu Brasil que contorna e guarnece a frente do carro; é uma tradição desta tribo.

Carro 6: A Confraternização
Após a acirrada disputa entre Garantido e Caprichoso todos se unem para ouvir o grande solista do Amazonas, o Uirapuru. Testemunhando tudo isto, o Salgueiro traz o seu maior destaque simbolizando Xangô, que é o senhor da justiçar e dá vitória aos dois rivais selando a paz e a união

Mário Borriello
Carnavalesco